Há uns dias que no Abrupto se vem publicando uma série de recortes da censura do outro tempo, em que semi-analfabetos (atendendo à ortografia exibida)  descreviam as notícias que cortavam, com sintético fundamento (imoral, sugestivo, anti-católico, etc…); para grande surpresa minha (ironia, ironia…), parece que já na altura Portugal era um País normal: pessoas que pensavam, que punham em causa o regime estabelecido e os regimes que o Regime estabelecia, suicidas, homicidas e, até,trocadilhos de índole sexual (falo agora da referência aos tumultos provocados pela chegada de Greta Garbo a uma cidade e o comentário «Oh, senhores, não há maneira de deixarem a Greta em paz!»).

Todavia, simultaneamente são publicados os famigerados retratos do trabalho daquela época, fotografia a preto e branco imaculada, sorrisos para a câmara, composições cuidadas, tudo muito tipo «Aldeia da Roupa Branca».

Coisas.

(eu tinha de publicar qualquer coisa, até porque o facto mais marcante de hoje aconteceu à noite no supermercado, observando uma persistente e compulsiva tacteadora de pão, que devia ser cega tal a força com que se agarrava às baguetes,  saltando-lhe eu à frente e salvando um saco de pãezinhos daquelas pinças afiadas com um «desculpe, minha senhora, mas não preciso que me apalpe as bolas»).

Adormeceu mal isto acabou.

Irresistível (12’10”).

Enquanto estou aqui especado à espera que alguém se oriente, a persistência da chuva contra a janela (noutros tempos o termo seria vidraça, hoje insultuoso para com os vidros duplos de não sei quantas faces fumadas de não sei que espessura e mais não sei o quê atérmico e insonorizante sustentados por caixilharias xpto, a léguas de distância dos pequenos quadrados de vidro presos por finos pregos e massa de vidraceiro em mais ou menos trabalhadas ripas de madeira) recorda-me que, de facto, a família e a privacidade são o que de mais importante construímos: o conforto do nosso Mundo enquanto navegamos nessa imensidão que é, ao fim e ao cabo, o Mundo dos outros.

Ela: Estás a ficar com o cabelo fino… e ralo.

Ele: O que queres, é a velhice…

Ela, com um sorriso triunfante: É não é?

Ele, impávido: Não te esqueças, pá, já estou quase da tua idade…

– A tua mulher tem um ar deprimido mas, pudera, é casada contigo…

– Olha, e a tua tem um ar alegre demais para quem está casado contigo. Percebes?

Quando me disseram que o Benfica ganhou 4-0 ao União de Leiria, perguntei se era normal num jogo uma equipa marcar quatro golos na própria baliza.

Ouvido há pouco na mercearia do tipo que estava à minha frente:

– Desculpe, menina, podia escolher-me uns melões que estou com pressa?

– Mas é claro, tenho olho para os melões, basta mexer-lhes e vejo logo se estão bons. Aliás tenho imenso jeito com os melões, até acho que estou na profissão errada… adoro fazer isto com os melões.

Daí a razão do vídeo: fruta madura. Boa.

Por muitas dúvidas que a vida nos atire, há uma certeza: não sabe, não mexe, não estraga.

Recomeça aqui o estio, muito provavelmente num registo algo diferente.

Então vamos lá a isto e desculpem qualquer coisinha.